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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Teste brasileiro que recupera lesão medular busca patrocínio

A descoberta de que a proteína laminina ajuda na regeneração de neurônios em ratos teve pedido de patente registrado no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Intelectual). Esse registro, porém, só é reconhecido no exterior até janeiro de 2011. A partir daí, é preciso entrar com registro em cada país individualmente. Como o processo é caro, o grupo de pesquisa da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), responsável pela descoberta, procura patrocinador.

É possível que a pesquisa clínica (em humanos) seja bancada por um hospital privado do Rio, cujo nome é ainda mantido em sigilo.
Em 2004, um estudo internacional já tinha usado a laminina em testes semelhantes, mas sem resultados. A inovação trazida pelo Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular da UFRJ foi a diluição da proteína em pH ácido, o que levou as moléculas a se conectarem de forma diferente. "Como o entorno da célula tem pH ácido, provavelmente o polímero que existe no corpo é esse", diz Karla Menezes.
Enquanto o patrocínio para testes clínicos não vem, o grupo prepara uma pesquisa para avaliar a toxicidade da laminina em cachorros. O teste será conduzido com animais que tiveram a lesão há mais tempo.
Se esses testes também apresentarem melhora, pode ser um sinal de que a proteína poderá ser útil também para o tratamento de casos crônicos.

Proteína recupera movimento de ratos com lesão medular

DENISE MENCHEN

DO RIO

Enquanto o mundo se debruça sobre o potencial das células-tronco para a recuperação de lesões medulares, um grupo de pesquisadores da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) obteve resultados promissores por meio do uso de polímeros de laminina, proteína encontrada em diferentes tecidos humanos e animais.
Testes realizados em laboratório mostraram que a substância foi capaz de promover a recuperação do movimento de ratos tratados logo após a lesão. Os resultados foram publicados na revista da Faseb (Federation os American Societies for Experimental Biology) em julho. A pesquisa clínica, em humanos, deve começar em cerca de um ano em um hospital privado do Rio - como as negociações ainda não estão concluídas, o nome é mantido em sigilo.
A pesquisadora Karla Menezes, que desenvolveu o projeto durante sua tese de mestrado em biologia celular, explica que a recuperação variou de acordo com a gravidade da lesão. Mas, tanto nos casos mais graves quanto nos mais leves, a melhora foi maior e mais rápida nos animais tratados com a proteína do que entre aqueles que não receberam tratamento - mesmo nesses casos, uma recuperação espontânea de parte dos movimentos é normal, segundo a orientadora da pesquisa, Tatiana Coelho-Sampaio.

LESÕES

Os ratos que foram submetidos a uma compressão da medula, lesão considerada leve, recuperaram quase que integralmente os movimentos após dois meses, obtendo em média nota 20,8 em uma escala internacional de avaliação que vai de 0 a 21. Os que não foram tratados ficaram com 19,1. No primeiro grupo, porém, a recuperação foi muito mais rápida: na segunda semana, eles já estavam com nota 17,4, contra apenas 13,1 dos que não receberam tratamento.
No caso da lesão mais severa, com o rompimento total da medula, a diferença foi ainda maior. Aqueles que não receberam nenhum tipo de tratamento obtiveram nota 4,2 após dois meses, enquanto os que receberam a injeção de laminina ficaram com 13.
Vídeo gravado pelos pesquisadores mostra o que a diferença de quase nove pontos significa na prática - enquanto o rato que não recebeu tratamento não consegue sustentar a parte posterior do corpo e quase não mexe as patas traseiras e o rabo, o que foi tratado se movimenta com rapidez, mexendo as quatro patas e o rabo, ainda que com alguns problemas de coordenação e equilíbrio.
"Os resultados são melhores do que os obtidos pela Geron", diz Coelho-Sampaio, referindo-se à empresa americana que recebeu no fim de julho autorização para conduzir os primeiros testes com células-tronco embrionárias em humanos. Outra vantagem, diz, é que a técnica é barata e, pelo que já foi possível verificar, não oferece risco de formação de tumores.

PROPRIEDADES PROTEICAS

O bom desempenho, segundo ela, pode ser atribuído a diferentes propriedades do polímero de laminina - nos testes, foram usadas proteínas retiradas da placenta humana e de tumores malignos de ratos. A pesquisa revelou que a proteína mostrou-se capaz de reduzir a inflamação, promover a regeneração dos neurônios e reduzir a formação de cicatrizes após a lesão, facilitando a transmissão dos impulsos elétricos.
A substância começou a ter sua aplicação em casos de lesão medular pesquisada devido a indícios de que ela induz o crescimento dos neurônios em pelo menos duas situações - na fase embrionária, quando uma espécie de "tubo de laminina" guia a formação do sistema nervoso central, e já na fase extrauterina, quando um tubo semelhante ajuda na recuperação de nervos lesionados.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Esperança para lesões na medula

Pesquisadores da UFRJ conseguem devolver movimentos a ratos paraplégicos com injeção de proteína extraída de placenta humana

Uma proteína presente em diferentes tecidos do corpo humano, entre eles a placenta, pode representar uma nova perspectiva para pacientes com lesões medulares. Pesquisadores do Instituto de Ci ên cias Biomédicas da Univer si da de Fe deral do Rio de Janeiro (UFRJ) con seguiram devolver mo vi men tos a ratos paraplégicos a par tir da injeção de laminina polimerizada diretamente na medula es pinhal. A proteína mostrou ter ação anti-inflamatória e regenerativa.

A descoberta representa uma nova esperança no tratamento de lesões medulares, já que hoje não existe nenhum tratamento capaz de restaurar as conexões neuronais entre o cérebro e a medula em casos de lesão. De acordo com a pesquisadora Karla Menezes, do laboratório de biologia da matriz extracelular, onde foi conduzido o estudo, a laminina é encontrada na parte externa das células e tem, entre outras coisas, a função de induzir o crescimento neuronal. “Não sabemos ao certo porque, mas uma pessoa que sofre lesão na medula tem a produção dessa proteína prejudicada”, explica. O que fizeram os pesquisadores foi criar em laboratório polímeros (cadeias) da proteína em solução ácida. Eles descobriram que o pH ácido estabiliza a polimerização da laminina, fazendo com que as moléculas formem uma rede. A laminina polimerizada foi então injetada na me dula espinhal das cobaias que haviam sido submetidas a lesões de diferentes graus. Os resultados impressionam. Após al gumas se ma nas, os ratos com le sões leves ob tiveram uma me lhora equivalente à de uma pessoa sair da cadeira de rodas para caminhar com ben galas. Nos casos de lesões graves, também percebeu-se maior controle sobre os membros no que diz respeito a força, equilíbrio e mo vimentos. Para o estudo, as in jeções na medula espinhal fo ram feitas entre 30 minutos e dez dias depois da ocorrência da lesão. “É um tratamento para lesões agudas. Para pacientes que já têm a le são há algum tempo ainda não sabemos se os efeitos são os mesmos.”

Segundo a pesquisadora, as lesões na medula normalmente geram uma resposta inflamatória exagerada do organismo. Após a lesão, há o comprometimento dos axônios – fios elétricos presos aos neurônios que conduzem as informações do cérebro para o resto do corpo. O que a terapia com a laminina é capaz de fazer é diminuir a inflamação e preservar os axônios da degeneração, estimulando a sua regeneração.

Para ela, a descoberta representa uma nova perspectiva. “É uma alternativa de tratamento a partir de uma proteína existente no próprio corpo, que já foi testada em tratamentos para outros tipos de lesões, como lesões cutâneas por exemplo, e não oferece rejeição, não é tóxica e tem riscos mínimos para o paciente”, afirma. Além disso, o processo de polimerização em laboratório teria um custo aproximado de apenas US$ 100.

O próximo passo será tratar animais de maior porte, como cachorros. Além disso, os pesquisadores já submeteram o pedido de autorização para estudo clínico ao Comi tê Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e esperam que até o fim do ano possam iniciar os testes com pa cientes humanos. “A ideia é dar continuidade às pesquisas e tentar combinar o tratamento com outras terapias envolvendo células-tronco.”